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Blade Runner 2049 questiona limites da vida artificial

Blade Runner 2049 amplia questões colocadas pelo clássico de 1982 / Reprodução
Blade Runner 2049 amplia questões sobre memória e identidade, levantadas pelo clássico de 1982 / Reprodução

No conto “Upon the Dull Earth” (“Sobre a Terra Desolada”, numa tradução livre), Philip K. Dick conta a história de Silvia, que, usando sangue de cordeiro, consegue invocar anjos, seres gigantes de outra dimensão, de asas brancas.

Um dia, Silvia se fere acidentalmente, atrai esses anjos e tem seu corpo destruído.

Da outra dimensão, ela consegue dizer para seu namorado Rick que quer voltar, que a operação é perigosa e que precisa de um pouco de barro para reconstruir seu corpo.

Sem querer, ela volta no corpo de sua irmã Betty Lou, que se transforma em Silvia. Em seguida, cada pessoa da família de Silvia vai se transformando numa cópia dela. Progressivamente, as outras pessoas também.

Todos os seres humanos do mundo acabam se transformando em Silvia, incluindo Rick, na tentativa dela de retornar do mundo dos anjos.

Apesar de não ser de ficção científica, o conto define temas básicos da obra de Philip K. Dick, como a relação entre realidade e identidade.

Apesar de ser de a história ser de 1954, Silvia se comporta como um vírus de computador, espalhando-se sobre a Terra e instalando-se em cada ser humano do planeta.

Esses temas principais de Philip K. Dick apareciam em Blade Runner, filme de 1982 baseado num romance do autor. Como ter certeza do que é real e da própria identidade, quando memórias podem ser criadas artificialmente?

Em Blade Runner 2049, assim como no longa-metragem original, os temas de memória, consciência e identidade são apresentados por meio de pessoas criadas em laboratório, chamadas de replicantes.

Os replicantes saem de fábrica já adultos, com memórias artificiais de infância implantadas em seus cérebros. Eles foram criados para realizar tarefas que humanos não querem exercer. Para serem escravos, na prática.

(Se você não ainda não viu o filme e não quer saber detalhes a respeito da história, é melhor parar por aqui.)

Inteligência artificial

Mas o que era somente uma metáfora há 35 anos está muito mais próximo da realidade hoje, diante de avanços da inteligência artificial e da genética.

Mesmo assim, o futuro mostrado em Blade Runner 2049 é um futuro projetado a partir passado.

A Los Angeles coberta por chuva ácida era dominada por letreiros e imagens japoneses no filme de 1982, numa época em que a indústria norte-americana temia ter sido ultrapassada por companhias como Sony e Toyota.

No filme atual, os letreiros de néon japoneses são combinados a chineses e coreanos, o que é mais condizente com a situação atual. Vários anacronismos, no entanto, são mantidos.

Os personagens falam de tecnologia soviética, como se a União Soviética não tivesse acabado. Ou ainda, se ela tivesse sido reconstruída, em algum momento daqui até 2049.

Ryan Gosling interpreta KD6.3-7, ou K, um caçador de modelos antigos de replicantes, assim como havia sido Rick Deckard, o personagem de Harrison Ford no filme original e neste novo.

Em Blade Runner 2049, a principal pergunta é: se um ser artificial consegue se reproduzir, ele pode ser considerado humano?

O espectador saía do primeiro filme com a dúvida se Deckard era ou não um replicante. A resposta veio somente anos mais tarde, com a versão do diretor, em que Ridley Scott propôs um novo final.

No longa-metragem deste ano, não existe espaço para tanta ambiguidade. O principal da história é bem explicado, quando o filme chega ao fim.

Esse é o principal ponto em que Blade Runner 2049 fica atrás do original.

Visões do futuro

Visualmente, no entanto, o novo filme iguala, ou até supera, o clássico de 1982. Ele atualiza a Los Angeles decadente e apresenta San Diego convertida em depósito de lixo e Las Vegas coberta por uma nuvem radioativa.

Apesar de toda a destruição, é difícil não gostar de olhar para tudo aquilo. O filme tem quase três horas, mas dá vontade de observar aquele mundo por muito mais tempo.

Poucas tendências tecnológicas atuais foram agregada àquele futuro retratado em 1982. Uma das poucas exceções é a inteligência artificial digital, que aparece na forma de Joi (Ana de Armas), namorada e assistente virtual de K.

Denis Villeneuve, diretor de filme, vem de uma série de filmes ótimos. Do suspense Os Suspeitos (2013) à ficção científica A Chegada (2016), passando por O Homem Duplicado (2013) e Sicário (2015). E Blade Runner 2049 não faz feio.

Outra tecnologia atual que aparece no filme novo é o drone. K usa uma aeronave não tripulada, que carrega em seu carro, para ajudá-lo em suas missões.

Na década de 1980, no entanto, o significado principal de drone era outro.

Drone é a repetição contínua de uma nota ou acorde por boa parte de uma música. Trata-se de um recurso bastante usado em música eletrônica mais experimental.

Os três filmes anteriores de Villeneuve tiveram suas trilhas sonoras compostas pelo islandês Jóhann Jóhannsson. Várias cenas são acompanhadas por esse drone, por esse ruído de fundo.

Jóhannsson acabou abandonando Blade Runner 2049, porque o diretor queria alguma coisa mais parecida com Vangelis, o autor da trilha do primeiro filme.

Mas a ideia do drone se manteve, desta vez combinada a teclados oitentistas. Assim como os filmes anteriores do Denis Villeneuve, Blade Runner 2049 oferece muito para ver e muito para ouvir.

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